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  • viktor 27/05/2010 3:04 PM Permalink | Responder
    Tags: 3d, jornal   

    Sensacional este jornal em 3D! Eu achava que o hipertexto é que conferia profundidade à leitura…

     
  • viktor 11/05/2010 7:35 PM Permalink | Responder  

    Do texto do Greg Linch no Publish2 Blog, sobre como a inteligência computacional pode inspirar novos modelos de experiências jornalísticas.

    Here some commonalities I’ve drawn between journalism and programming:

    • Abstraction: My colleague Daniel Bachhuber verbalized this well: This means breaking something down into discrete elements. In the context of journalism, it means breaking things down into concrete questions and then finding the answers, which you can compose in some fashion.
    • Defining your variables or functions: Programming involves defining variables and functions to quickly and efficiently reference something without redundancy (ideally). As the saying goes, “don’t repeat yourself” (usually abbreviated as DRY). This is just like journalism. For example, if you’re writing about a fire, you need to explain the who, what, when, where, why, how, etc. “variables” so people understand what you mean later on when you reference “the fire.” Also, when you mention something related to the subject matter and link to more background or context. The DRY (unnecessarily) principle also applies to journalism.
    • Debugging: This process of locating and correcting errors in a code is similar to copyediting (think for the webmaster-copy editor example).
    • Bug and error reporting: When my browser crashes, it gives me the option to send an error report. When someone catches a factual error, we ask them to let us know. These two concepts already intersect with Scott Rosenberg’s MediaBugs, which launched in beta last week and allows users to report and discuss errors.
    • Commenting your code: Leaving a comment in your code is a way of adding information that doesn’t interfere with the code and, for example, helps to explain what something is and why it’s there. This is much like how a reporter would provide context for a quote, which you can’t change without “breaking it,” so to speak.
    • Learning different programming languages: On the bus back from Philly, I listened to a tech podcast on which Kevlin Henney, author of 97 Things Every Programmer Should know, asserted that programmers should learn other languages to improve inform and improve how they write their primary language. Similarly, journalists are encouraged to read other forms of composition to become better writers and watch other styles of motion pictures to become better videographers. For example, I’ve heard recommendations to take a screenwriting class and learn about that style to my enhance journalistic work.
    • Refactoring: This refers to changing internal code without effecting the external meaning or behavior. Another definition that correlates more to journalism says it’s a “form of editing whose goal is to improve readability while preserving meaning. It is a stronger term than copy editing.” This reminded me of the larger structural or organizational changes sometimes needed to improve a story while still maintaining the original focus.
    • Algorithm: In general sense, this is a “precise rule (or set of rules) specifying how to solve some problem.” A cooking recipe could be considered an algorithm, as could  the reporting process — you start with some information or questions and then do research, interview people, draft and finalize a story as the result. That said, journalism includes elements of both art and science, not a rigid process as I explained before.
    • Version control: When creating software, a core principle is keeping track of each iteration of the project. In the editing workflow of a news organization ideally keeps track of different revisions, either on a single document (for The Hurricane, that would be in the WordPress admin) with a history or by saving a new document and noting who last saw it (as The Hurricane did before switching to WordPress).
    • Semantic: Another word for semantic is unambiguous, David Siegel says. More specifically, ”In the Semantic Web, we declare what we mean in precise, standardized terms. Data that is semantic means exactly the same thing to any system or person who uses it.” Do we not aim for the same thing in journalism?

    So, really, you could say computational thinking has always been a part of journalism — we just hadn’t labeled it as such.

    Mais adiante, Linch ainda cita Tim Peters (em dica de Christopher Groskopf), com seus “versos” sobre o Zen do Python, para justificar como o código computacional e o ethos jornalístico têm ótimos paralelos.

    Beautiful is better than ugly.
    Explicit is better than implicit.
    Simple is better than complex.
    Complex is better than complicated.
    Flat is better than nested.
    Sparse is better than dense.
    Readability counts.
    Special cases aren’t special enough to break the rules.
    Although practicality beats purity.
    Errors should never pass silently.
    Unless explicitly silenced.
    In the face of ambiguity, refuse the temptation to guess.
    There should be one– and preferably only one –obvious way to do it.
    Although that way may not be obvious at first unless you’re Dutch.
    Now is better than never.
    Although never is often better than *right* now.
    If the implementation is hard to explain, it’s a bad idea.
    If the implementation is easy to explain, it may be a good idea.
    Namespaces are one honking great idea — let’s do more of those!

    Os entusiastas do WordPress dizem sempre o belo bordão “Code is Poetry”. Linch emendaria, “Code is Journalism”. :)

     
  • viktor 10/06/2009 9:25 AM Permalink | Responder
    Tags: futurologia, jornalismo colaborativo, mark glaser, wiki   

    Esse texto do Mark Glaser, traduzido pelo Romeu Martins Érico Assis, é bacana. Mas, como todo texto que faz futurologia, ele é um pouco anacrônico, ou seja, o cara pensa com os botões deste tempo, mas no futuro todas as blusas terão zíper. Uma ferramenta como o wiki não é (definitivamente) o modelo-futuro do jornalismo. Há, é claro, uma série de possibilidades para se testar a partir de ferramentas wiki, mas essas possibilidades podem ser testadas agora. E não me parece que esse será o modelo dominante – mesmo porque ele (o Glaser) está analisando tudo do ponto de vista de quem já comprou a dinâmica colaborativa e deixou de lado o corporativismo. Se fosse tão simples assim, experiências como o WikiNews fariam um tremendo sucesso. E o próprio Jimmy Wales já falou (no RodaViva) sobre as limitações do wiki para modelos de jornalismo colaborativo.

     
    • erico 9:34 em 10 10UTC junho 10UTC 2009 Permalink

      Olá,
      Correçãozinha: o tradutor do texto sou eu, Érico Assis, e não Romeu Martins.

      Abraço,
      Érico Assis

    • viktor 9:37 em 10 10UTC junho 10UTC 2009 Permalink

      Opa, Érico. Perdão pela falha no crédito. Corrigido ali em cima!

  • viktor 19/05/2009 3:08 PM Permalink | Responder
    Tags: Alexandre Pato, Blog da Felina, cultura do abafa, Diego Hypólito, Felina, Júnior Lima, msn, Ronaldo Fenômeno, Sandy e Júnior, sexo, Ted Fernandes, timing de mídia, Vanderley Luxemburgo, webcam   

    Sexo, mentiras e fakecams

    “Existe tempo que não seja real?” Há uns cinco anos ouvi esta pergunta de um professor basco que ministrou uma oficina quando eu estava no fim de minha graduação. Não é novidade que a mídia impressa corre sempre atrás do prejuízo quando o assunto é internet. Isso, é claro, é uma questão que está intimamente relacionada ao suporte. A informação digital é leve e, como o vírus da gripe suína, se propaga facilmente pelo ar.

    O grande problema, contudo, é que não é uma questão de tecnologia e velocidade apenas, é uma questão de timing. E timing aponta na direção exata do que uma antropóloga-socióloga americana define como “news judgement”, ou seja, a capacidade humana de o jornalista operar com seus próprios valores e aplicá-los no que seria uma espécie de ethos profissional. O news judgement seria responsável por estabelecer critérios razoavelmente claros (mas inextricavelmente subjetivos) sobre que notícia é mais importante que outra e quando algum acontecimento é ou não notícia. Para ela, o news judgement é uma espécie de senso comum do jornalista que aparece sempre que, em última instância, se solicita o porquê de determinado juízo sobre determinada pauta. Ou seja, é uma espécie de arma contra a qual não se pode lutar, no que Tuchman chama de “ritual estratégico de objetividade” do jornalista.

    Minha percepção é de que o tempo nas redações de publicações impressas é mesmo diferente do tempo da vida online. Isso, é claro, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Há uma inexplicável resistência em se evidenciar um assunto com o mesmo imediatismo que os jornalistas-da-internet costumam fazê-lo, o que acontece não somente pela propagada responsabilidade de apuração jornalística, mas sobretudo pelo timing dos impressos, que é diferente do timing dos onliners.

    Esta é a primeira questão.

    A segunda está relacionada a uma curiosa cultura de mídia definitivamente mais moralista no Brasil que em outros lugares. Uma coisa que poderia ser classificada como “cultura do abafa”. Nos Estados Unidos, nos tablóides ingleses, mesmo na França (e aqui lembro que numa ocasião abri uma revista de gastronomia francesa certa feita e me deparei com um anúncio com uma mulher em nu frontal sem nenhum pudor), a cultura papparazzi de celebridades é mais dominante. Por lá, se a amiga da namorada do príncipe William promove orgias em casa, o assunto ganha as manchetes do mundo. Se o supremo dirigente da entidade máxima do automobilismo é flagrado em uma bacanal nazista, logo se sabe, e não há muito o que esconder depois disso. Ao contrário, o que escondem são os problemas sociais, as revoltas populares, os assuntos de segurança interna. É mais fácil um governador de Nova Iorque ser deposto por se envolver com uma rede de prostituição do que por improbidade fiscal.

    Ao menos à primeira vista, em clara generalização em prol do meu argumento, no Brasil, os escândalos políticos e os problemas sociais ganham as capas dos jornais, enquanto informações sigilosas sobre o submundo das celebridades são cotidianamente abafadas. O que chega na mídia brasileira sobre os escândalos com famosos ou é coisa supostamente leve (Chico Buarque pegando a menina no Leblon) ou coisa esquisita demais para ser omitida (Ronaldo pegando travestis) ou coisa que chega a nós pela mídia estrangeira (Robinho acusado de estupro) – e aí não tem mais jeito, a merda “está feita”!

    Postas estas duas questões, introduzo (no bom sentido) o tema do artigo. No jornal O Globo, de 14 de maio, uma minúscula nota na coluna Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos, me chamou a atenção pelo démodé do teor. Ela (a nota) dizia que a Felina tinha sido desmascarada pelo “especialista em internet” Ted Fernandes, que costuma ajudar a Polícia Federal em investigações sobre pedofilia.

    A Felina, para quem pega o bonde andando, é uma suposta mulher (ao menos no avatar e nas fotos que ela tem divulgado por aí, é até gatinha!) que estaria divulgando fotos de celebridades famosas nuas/seminuas em seu blog, como Ronaldo Fenômeno, Vanderlei Luxemburgo, Alexandre Pato, Diego Hypólito, Júnior Lima (o da Sandy) e outros tantos. Na verdade, não haveria nenhuma novidade nisso se o Blog da Felina não exibisse o pitoresco atrativo de uma contextualização: as fotos divulgadas, entre elas de atores, cantores, técnicos e principalmente jogadores de futebol, são obtidas através de conversas por MSN entre as personalidades e ela, uma loira ex-modelo. A Felina, que segundo a própria, é um alter ego de Fabiane Menezes, mantém um diálogo com a vítima por longas semanas, às vezes meses, até que, num dia, combina um strip-tease conjunto. Ela tira a roupa e o sujeito… vamos dizer… se masturba. Ok. Nesse ponto, começam os argumentos partidários e contra-partidários: “Que absurdo! A sociedade está completamente degradada” ou até “Mas isso é normal. Quem é que nunca fez ou quis fazer sexo virtual com uma mulher daquelas?” Pra mim, isso é irrelevante. Então, por favor, nos comentários, ninguém venha me perguntar se eu faria ou não faria sexo virtual com uma mulher “daquelas”.

    Eu, é claro, já sabia da história da Felina de longa data. Acompanhei o blog dela a partir da entrevista pioneira do KibeLoco com a própria por MSN. Li as interações entre ela e o Tico Santa Cruz e também entre ela e o Marcelo Luque, segundo a própria, “seu atual melhor amigo”.

    O que me surpreendeu na nota dO Globo foi o timing da notícia e a autoridade conferida ao especialista Ted Fernandes. O timing porque até que o jornal divulgasse alguma coisa, a notícia já tinha alcançado o status de viral na rede, sendo replicada em milhares e milhares de blogs sobre os mais diversos assuntos, além de menções breves e obviamente de cunho conservador nos programas do Datena e do Ratinho. Ted Fernandes, o especialista, é um blogueiro comum, de cerca de 20 anos, meio moralista meio olavete (que é como se costuma denominar os blogueiros neoliberais-conservadores na blogosfera, por sua proclamada atração pelas idéias do filósofo Olavo de Carvalho). Ted ainda cultua a figura de Arnaldo Jabor – alguém que admira o Arnaldo Jabor é realmente uma fonte confiável?

    Pois segundo o blogueiro, cidadão-jornalista de primeira ordem, a Felina seria um homem fazendo-se passar por mulher, usando, para tanto, um aplicativo chamado fakecam. Era isso o que dizia a nota e foi isso o que me fez querer acessar o blog do Ted.

    O aplicativo indicado na nota dO Globo, pelo que li a respeito, simplesmente transmitiria vídeos comuns pela webcam. Assim, de acordo com a hipótese levantada pelo blogueiro, “o” Felina usaria um vídeo amador de uma loira qualquer fazendo strip e as celebridades acreditariam nisso. Convenhamos que quem confunde travesti com mulher até as últimas conseqüências também não deve ter discernimento suficiente para identificar o que é um vetê amador fazendo-se passar por uma mulher real. Mas, para mim, é no mínimo curioso. Fiquei pensando que é como ficar conversando com uma secretária eletrônica por semanas sem se dar conta de que as respostas estão pré-programadas!

    No blog do Ted, vi que ele afirmava ter conseguido rastrear o IP (a identidade na internet de cada computador) da Felina e chega a mostrar uma foto do GoogleMaps com o endereço dela. Ainda seguindo as informações levantadas por ele, Felina seria um homem, não uma mulher, e homossexual (antes que me perguntem como diabos ele conseguiu saber da opção sexual do sujeito, esclareço que a associação foi feita simplesmente porque o IP de Felina constava como o responsável pela criação de um perfil em um site de relacionamentos gay). Enquanto isso, no seu blog, Felina respondia dizendo que estava sendo ameaçada e que desde sempre postava de lan houses, o que impossibilitaria que o rastreamento por IP chegasse ao seu endereço físico real. Outros blogueiros apoiaram a versão de Ted, afirmando que os erros grosseiros de português nos posts da Felina e as constantes gírias gays utilizadas eram prova o bastante de que se tratava mesmo de um “ressentido”.

    Num blog da Época, também bem depois de a coisa toda explodir, o repórter contava sobre a versão do Ted e acabou recebendo um comentário dele e mais outros tantos da própria Felina, o que acabou possibilitando um contato para que ela concedesse uma exclusiva à revista, com direito a trechos em áudio que “provavam” sua feminilidade. Até então, alguém, em algum momento, comentava dizendo que estranhava o fato de só o Kibeloco ter obtido uma entrevista com ela, agora promovida a celebridade-viral. Na última semana, ainda veio a menção à Felina no Caldeirão do Huck, quando uma ex-BBB cujo namorado foi também flagrado pela janela indiscreta do MSN, dizia que a blogueira tentou extorqui-la com a história. A resposta da outra celebridade-BBB à celebridade-viral foi taxativa: “O pinto não é meu… então, vai te catar!”

    No fim, por conta da pressão da suposta investigação de Ted, Felina dizia que se sentia acuada e que iria sair de cena, desativando o blog, o que realmente aconteceu poucos dias depois, após os avisos dela própria de que eram os seus últimos posts. Na tal nota dO Globo, parecia que o blog foi desativado pelas autoridades públicas, auxiliadas pelo “especialista” e foi assim que muitos outros blogs veicularam a notícia. O Ted era o grande herói no fim das contas. Mas acontece que, um dia depois, a Felina voltou e disse que não tinha sido banida do Blogger coisa nenhuma, que ela própria havia decidido pela remoção do blog, por causa da depressão que a divulgação das imagens do Ronaldo Fenômeno sem camisa na webcam haviam causado em Ronald, o filho dele – segundo ela com a Luma de Oliveira (hehe). Desmentida a informação que já circulava solta pela rede pós-nota dO Globo, a Felina voltou a postar em seu blog, mas, desta vez, apenas fotos de divulgação com celebridades seminuas e fotos pirateadas de sites e campanhas eróticas internet afora, ou seja, só mais um blog pornô. Contra isso, o Ted disse que não vai lutar.

    Essa história toda serve para ilustrar essas duas condições que evidenciei lá em cima: a diferença de timing entre uma mídia e outra e a “cultura do abafa”. O fato é que as informações ainda estão completamente desencontradas. Não é possível saber quem fala a verdade e quem fala mentira. Mas a mídia tradicional comprou a versão do Ted sem ter certeza nenhuma do que está acontecendo, somente para “desmascarar” a Felina e abafar o caso. Mesmo sendo um homem, mesmo sendo homossexual (o que parece ser sinônimo de ressentido no discurso dos “desmascaradores”), é no mínimo escandaloso que os famosos tirem a roupa e fiquem ali se masturbando para uma webcam. Embora nos blogs os comentários mais sensatos apontem nessa direção, ninguém fala sobre isso nos grandes meios de comunicação. O alarde é para a descoberta da falsidade ideológica. O foco das reportagens da Época e da nota dO Globo, entre outras várias menções anteriores, apostam no Ted, que é um blogueiro como qualquer outro e simplesmente tem uma versão sobre os fatos. Digna, é claro, que merece ser investigada, é claro, mas que não é notícia por si só. Notícia é o Blog da Felina ter atingido 2,7 milhões de acessos em pouco mais de um mês, um número extraordinário considerando-se o tempo em atividade e as condições do veículo (um blog no Blogspot/Blogger). Sobre isso, ninguém ousou noticiar. Abrir para o debate sobre essa cultura de mídia que é quase sinônimo de cultura de exposição e voyeurismo, ninguém quis, exceto os blogueiros mais descolados. Falar sobre a versão desencontrada da Felina, de que seria verdadeiramente uma mulher seduzindo homens famosos pelo MSN, ninguém arriscou. Mas não houve princípio de dúvida e nem apuração efetiva para se noticiar a informação não menos desencontrada de Ted Fernandes, que se propunha a abafar o caso, já que, como ele diz, o objetivo foi “tirar de lá imagens que estavam sendo expostas sem autorização”. Na pior das hipóteses, Ted, uma espécie de cruzado contra a pirataria, não se incomoda de ver fotos piratas no novo blog da Felina. Mas se incomoda se ver famosos que posaram espontaneamente para ela por lá. Mas, independentemente da idiossincrasia do Ted (de quem espero um comentário prestigiador aí embaixo!), alguém questionou isso? Mais: por que, independentemente da idiossincrasia da Felina (um comentário seu também seria fenomenal!), a grande imprensa não noticiou o que verdadeiramente era notícia, por mais escandaloso que fosse?

    Mesmo que seja verdade a informação do Ted – um caso raro de jornalismo cidadão investigativo no Brasil (nos Estados Unidos, esse tipo de coisa acontece com mais freqüência) –, os meios de comunicação tradicionais chegaram atrasados demais (e não pela tecnologia ou pelo suporte! mas pelo seu alegado “news judgement”), sob o pretexto de que estavam apurando os fatos. Matérias sobre a política brasileira, mesmo que desmentidas mais tarde, são noticiadas sem nenhum constrangimento em se apurar se verdadeiramente procedem ou não. E elas derrubam governos e instabilizam o regime democrático. Por essa lógica, parece óbvio que um blog que tenha despertado tanta atenção da dita “opinião pública” no último mês merecia ser noticiado quando no auge. Mas a “cultura do abafa” (e não a “política do abafa”!) – note que usei o termo não à toa – parece estar entranhada na cabeça de muita gente de imprensa. Mas a repercussão e a discussão proposta pela Felina, independentemente da sua idiossincrasia, e o esforço pessoal e voluntarizado do Ted Fernandes, independentemente da sua idiossincrasia, são prova de que esses timings diferentes (“Existe tempo que não seja real?”) às vezes incomodam. Não só quando o escândalo é altamente erotizado, como é o caso da Felina, mas também em outras etapas da nossa vida cultural. Muita coisa é abafada por aí pela grande mídia, porque afinal de contas opinião pública é só sinônimo de opinião publicada.

     
  • viktor 13/05/2009 4:35 PM Permalink | Responder
    Tags: Digestivo Cultural, fim da imprensa, fim dos jornais, Jardel Dias Cavalcanti   

    Do artigo do Jardel Dias Cavalcanti no Digestivo Cultural (meio lugar-comum em algumas afirmações, mas com boa epígrafe do Proudhon e o parágrafo que destaco a seguir),

    A mídia impressa vai perdendo rapidamente seus consumidores. Ninguém mais quer recortar e guardar notícias de jornais se pode tê-la no arquivo do próprio jornal virtual ou num CD ou pendrive. Ninguém mais quer pagar por uma notícia que pode ter de graça, abundantemente, no mundo virtual.

    Que ninguém mais queira pagar, concordo em absoluto. Mas será mesmo que ninguém mais quer recortar e guardar notícias? Será que com a internet o jornal não vira um fetiche de colecionador? No meu caso, é assim. Mantenho empoeirado o meu arquivo de recortes.

    E mais importante: como será o estudo de arquivos pessoais daqui pra frente? Se o arquivo de recortes do Capanema, p. ex., fosse todo virtual, já teríamos perdido uma pá de sites que ele eventualmente poderia ter indicado com bons artigos e assuntos para discussão. Não tanto pela pesquisa em si, que é sempre retrospecta, mas sobretudo pela confecção e produção de arquivos pessoais – a famosa “curadoria” -, a imaterialidade dos suportes nos faz pensar que a história também será revolucionada. Que o diga a tendência recente de blogs construídos a partir de clippings de navegação, ou das chamadas ferramentas de scrapping, que têm sido bastante úteis a pesquisadores… Acho que vou imprimir e guardar o texto do Jardel, por via das dúvidas.

     
  • viktor 13/05/2009 3:47 PM Permalink | Responder
    Tags: newsgames   

    Ainda pretendo parar para pensar com mais afinco sobre os newsgames, mas por enquanto só linko para essas excelentes plataformas:

    O pioneiro Madrid, sobre o atentado

    Food Import Folly, meio estética Mario Bros., sobre as inspeções alimentares do FDA

    Consumer consequences, que ensina essas coisas sobre aquecimento global

    Darfur is dying, sobre as péssimas condições de vida e a mortalidade infantil no Sudão

    jogos de trívia, como o Candidate Match Game II, o Game das Eleições 2008 e o Quiz das personalidades políticas, têm aos montes

    infográficos, como o Deadly rampage at Virginia Tech, já nem são novidade

     
  • viktor 13/05/2009 3:30 PM Permalink | Responder
    Tags: Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley, Ford, Fordismo, Redes Sociais, Sua Fordeza   

    Esse plano de mídias sociais da Ford faz ficar muito atual a saudação do Huxley à  Sua Fordeza, no “Admirável Mundo Novo”.

    ((Huxley, pra quem não conhece, era um cara que vivia “às portas da percepção”. Cego, mas grande visionário. E, curiosamente, neto de Thomas, o tal do teorema do macaco infinito, citado e ressucitado pelo Andrew Keen.))

     
  • viktor 13/05/2009 3:08 PM Permalink | Responder
    Tags: John Dewey, Paul Starr, Steven Johnson, Walter Lippman   

    E o que eu estou fazendo aqui, se não agregando? ;)

    ***

    No Mais! (Folha de S. Paulo), de 10/05/2009.

    Steven Johnson, um dos pioneiros da internet, e Paul Starr, Prêmio Pulitzer e professor de sociologia em Princeton, travam um debate acirrado sobre o futuro do jornalismo e o acesso é informação.

    6 de abril de 2009

    Prezado Paul,

    Comecemos pelos pontos sobre os quais provavelmente vamos concordar. Em primeiro lugar, os jornais historicamente forneceram e fornecem bens cívicos e públicos essenciais para uma cultura democrática saudável.
    Em segundo, os jornais se encontram em situação financeira difícil, em razão de transformações de longo prazo operadas em grande medida pela internet, também em razão da crise econômica –que esperamos ser de curto prazo– e, no caso de alguns jornais, por decisões financeiras insensatas de seus proprietários.

    Sejam quais forem as causas subjacentes, porém, acho que você e eu concordamos que, dentro de cinco ou dez anos, o setor dos jornais –e, portanto, seu produto editorial– terá aparência fundamentalmente diferente da atual.

    A dúvida é se vai ou não emergir um novo modelo que forneça os bens públicos antes garantidos pelos jornais por meio de seus monopólios locais que geravam alta margem de lucro (pelo menos nos EUA).

    Acho que existem boas razões para pensar que o sistema de notícias que está se desenvolvendo on-line será melhor que o modelo dos jornais com o qual convivemos nos últimos cem anos.

    Uma maneira de enxergar essa transformação é pensar na mídia como um ecossistema.

    Na maneira como ela circula a informação, a mídia de hoje é, de fato, muito mais próxima de um ecossistema do que era o velho modelo industrial e centralizado da mídia de massas.

    O novo mundo é mais diversificado e interligado – é um sistema no qual as informações fluem com mais liberdade. Essa complexidade o torna interessante, mas dificulta as previsões de como será sua aparência dentro de cinco ou dez anos.

    Em lugar de começar pelo futuro, proponho que olhemos para o passado. Quando os ecologistas pesquisam os ecossistemas naturais, procuram as florestas mais antigas, onde a natureza teve mais tempo para evoluir. Para estudar as florestas tropicais, eles não analisam um campo desmatado dois anos antes.

    Por analogia, devemos examinar as partes do noticiário on-line que passaram por uma evolução mais longa.

    Uma dessas áreas é a reportagem sobre a própria tecnologia. Esta vem crescendo e se diversificando há décadas, fazendo dela uma floresta antiga de notícias on-line.

    Por qualquer medida, esse campo hoje é imensamente mais informativo do que era quando comecei a acompanhar questões ligadas à tecnologia, no final dos anos 1980, ainda estudante universitário.

    A web não possui uma aptidão intrí­nseca para cobrir a tecnologia –ela apenas tende a cobrir a tecnologia em primeiro lugar porque as primeiras pessoas que usaram a web eram mais interessadas nessa área.

    Mas isso mudou e está continuando a mudar. A transformação do deserto do noticiário de tecnologia dos anos 1980 na rica diversidade da cobertura feita hoje está acontecendo em todas as áreas do noticiário.

    Ela está aqui, mas, como no ditado de William Gibson em relação ao futuro, ainda não está distribuída de maneira igual.

    Tomemos a política como outro exemplo. A primeira eleição presidencial que eu acompanhei de maneira obsessiva foi em 1992. Todo os dias o “New York Times” publicava um punhado de matérias sobre escalas nas campanhas, debates ou pesquisas de opinião.

    Todas as noites eu assistia a programas da televisão a cabo como “Crossfire” para ouvir o que os palpiteiros tinham a dizer sobre os acontecimentos do dia. Eu lia “Newsweek”, “Time” e “The New Republic” e vasculhava a “New Yorker” em busca de seus ocasionais artigos políticos. Quando os debates presidenciais eram transmitidos, eu assistia religiosamente, ficando acordado até tarde para ouvir os comentários dos especialistas reunidos.

    É verdade que tudo isso estava longe de constituir um deserto de noticiário. Mas compare-se o que havia então com as informações disponíveis na eleição de 2008.

    Tudo que existia em 1992 ainda estava presente, mas fazia parte de uma nova e vasta floresta de notícias, dados, opiniões, sátira –e, o que possivelmente seja mais importante, experiências diretas.

    Sites como Talking Points Memo e Politico faziam reportagem direta. Blogs como o Daily Kos traziam relatos aprofundados sobre corridas individuais, algo que o “New York Times” jamais teria tinta suficiente para cobrir.

    Blogueiros como Andrew Sullivan reagiam a cada nova virada no ciclo noticiário, e novos analistas como Nate Silver, no Fivethirtyeight.com, faziam análises de pesquisas que superavam de longe qualquer coisa oferecida pela CNN.

    Quando a economia implodiu, procurei os blogueiros econômicos, como Brad de Long, e assisti aos debates com mil amigos virtuais tweetando a meu lado no sofá. Tudo isso era remixado por meio das sátiras de Jon Stewart e Stephen Colbert, visto em clipes virais na internet tanto quanto na televisão.

    Podemos ver a mesma paisagem em mutação no Reino Unido, onde o blogueiro Guido Fawkes, que não é repórter de jornal, vazou os e-mails que levaram à renúncia do assessor de imprensa de Gordon Brown.

    E há mais: o ecossistema de noticiário político incluía informações dos próprios candidatos. Pense no discurso de Barack Obama sobre a questão racial, possivelmente um dos acontecimentos-chave da campanha. Oito milhões de pessoas o acompanharam no YouTube.

    Teriam as redes de TV transmitido esse discurso na íntegra em 1992? Com certeza não. Ele teria sido reduzido a um minuto no noticiário noturno. A CNN talvez o tivesse transmitido ao vivo, para 500 mil pessoas. A Fox News e a MSNBC nem sequer existiam.

    Para mim, não há dúvida alguma que o ecossistema do noticiário político em 2008 foi muito, muito superior ao de 1992. Alguns podem apresentar o argumento da “câmara de ecos”, dizendo que as fontes que cito têm viés político.

    Mas mesmo isso soa suspeito. Afinal, em 1992 eu lia apenas o “New York Times” e o “Nation”. Já em 2008, passei horas lendo a conservadora “National Review” on-line. Ainda era uma “pesquisa junto à oposição”, mas o fato é que essas visões de direita estavam a apenas um clique de distância.

    Algumas pessoas argumentam que essa nova diversidade é parasítica: os blogueiros são interessantes, é claro, mas, se as organizações noticiosas tradicionais perdessem peso, os blogueiros não teriam mais sobre o que escrever.

    Isso talvez fosse verdade no início desta década, mas não é mais. Imagine quantos barris de tinta foram comprados para imprimir comentários em jornais sobre a gafe de Obama em relação a “pessoas que se apegam a suas armas e à religião”.

    Mas essa frase não foi reportada originalmente pelo “New York Times” ou o “Wall Street Journal”, e sim pelo Huffington Post. É possível, é claro, que grandes jornais nacionais, como o “Times”, possam acabar florescendo nesse novo ambiente. Mas a sala de briefing da Casa Branca vai ficar mais e mais cheia. Não é que os jornais irão desaparecer –é apenas que deixarão de ser a espécie dominante.

    A cobertura política da campanha de 2008 foi fértil pelas mesmas razões por que a cobertura das notícias na web é fértil: porque a web já é uma mídia de crescimento antigo.

    As primeiras ondas de blogs eram focadas na tecnologia; mais tarde, se voltaram à política. A cobertura política em estilo “web 2.0″ já teve uma década para amadurecer e chegar a seu estado atual.

    Agora a mesma coisa está acontecendo com a cobertura de esportes, economia, cinema, livros, restaurantes e notícias locais –todas os temas padrões do velho formato dos jornais estão proliferando on-line. Há mais perspectivas e mais profundidade.

    E isso é apenas o crescimento mais recente. As notícias on-line estão apenas começando a amadurecer.

    Cordialmente,

    Steven

    10 de abril de 2009

    Caro Steven,

    Concordo que um novo modelo de noticiário e controvérsia pública está emergindo on-line e que sob alguns aspectos, especialmente a gama de opiniões que abrange, o ambiente on-line apresenta vantagens em relação ao mundo tradicional do jornalismo impresso.

    Mas a realidade é que os recursos para fazer jornalismo nos EUA, especialmente nos níveis metropolitano e regional, estão desaparecendo mais rapidamente do que as novas mídias conseguem gerá-los.

    Você emprega a metáfora de um “ecossistema”, e é um conceito reconfortante: à medida que morrem as formas de vida velhas, nascem outras novas.

    Mas você está tomando algumas árvores por uma floresta. Vamos tomar cuidado com as extrapolações que atendem aos nossos desejos.

    Se uma região de um país sofre chuvas pesadas e outra enfrenta uma estiagem, a presença de chuva em algumas áreas não me faz inferir que amanhã os desertos vão verdejar –não sem irrigação, pelo menos.

    Além disso, a própria metáfora orgânica induz ao engano. As mídias não se desenvolvem naturalmente. Elas se desenvolvem historicamente, e as forças que regem seu desenvolvimento são sobretudo políticas e econômicas.

    A maioria das sociedades, mesmo aquelas que têm uma imprensa nacional livre, não possui a abundância de mídia metropolitana que historicamente caracteriza os EUA. A imprensa no Reino Unido e na França, por exemplo, é muito mais concentrada no nível nacional.

    Mas nos EUA, desde a fundação da república até o século 19, a política governamental subsidiou a ascensão de jornais locais. Esses jornais, por sua vez, exerceram papel econômico importante como intermediários entre os vendedores (anunciantes) e os compradores. A partir desses lucros, os jornais puderam subsidiar a produção de notícias como bem público. De fato, os jornais diários metropolitanos têm sido a maior fonte de cobertura noticiosa original nas cidades norte-americanas.

    Essa função tem sido especialmente crítica nos EUA, porque, num sistema federal como o americano, funções públicas vitais são confiadas aos governos estaduais e locais.

    A democracia depende da cobertura noticiosa independente de todos os níveis de governo, especialmente os níveis que respondem diretamente aos eleitores. As pesquisas em ciências sociais mostram que, onde a mídia noticiosa é fraca, a corrupção está muito mais presente. Sem uma imprensa independente capaz de cobrar responsabilidade dos governos locais e estaduais, o projeto básico de uma democracia federal fica comprometido.

    A internet está enfraquecendo a capacidade da imprensa de subsidiar a produção de jornalismo de serviço público, e isso por uma razão, sobretudo.

    Os jornais diários metropolitanos já não ocupam a posição estratégica de intermediários entre compradores e vendedores que ocupavam no passado; existem maneiras alternativas, on-line, para os vendedores chegarem a seus mercados e para os consumidores encontrarem informações sobre produtos e vendas.

    A competição crescente para chamar a atenção dos leitores no ciberespaço também enfraquece a capacidade de a mídia noticiosa cobrar por seus conteúdos. A recessão atual e, em alguns casos, a administração insensata vêm agravando esses problemas, gerando cortes draconianos tanto no quadro de profissionais das Redações quanto na profundidade da cobertura jornalística.

    Jornais na Europa e outras regiões enfrentam as mesmas transformações estruturais graves, à medida que a internet prejudica suas fontes de receita.

    Nos EUA, a cobertura jornalística dos governos estaduais vem caindo de maneira nítida. Em meu próprio Estado, Nova Jersey, antigamente havia 50 repórteres que cobriam a política em tempo integral. Hoje esse número caiu para 15. Muitas notícias nem sequer chegam a ser cobertas.

    Contrariamente ao seu relato, o recuo dos jornais não vem sendo compensado por uma tendência de veículos on-line preencherem a brecha criada.

    Alguns sites de jornalismo estão se desenvolvendo em Estados e cidades em outras partes do país, mas quase todos operam em base sem fins lucrativos e em escala muitíssimo menor que a dos grandes jornais diários americanos.

    Existem na realidade três problemas separados aqui: 1) a produção de notícias feita com profissionalismo; 2) a produção de um público engajado; e 3) a produção de responsabilidade política efetiva.

    Embora seja inquestionável que a internet oferece uma diversidade de opinião e acesso a novas fontes, ela não vem conservando o jornalismo profissional generalista em seus níveis anteriores.

    Estão sendo servidos alguns públicos de nicho. No nível nacional, ao mesmo tempo em que o número de jornalistas da mídia generalista profissional vem diminuindo, muitos jornalistas têm encontrado trabalho em publicações de preço elevado que atendem a setores econômicos específicos. A indústria petrolífera, estou certo, receberá informações confiáveis sobre os fatos ocorridos em Washington. Mas não é igualmente certo que o público em geral receberá informações igualmente boas sobre a influência política da indústria petrolífera. E essa privatização do jornalismo provavelmente será ainda maior nos níveis estaduais e locais.

    A filantropia poderá subsidiar a reportagem investigativa e remediar esse problema parcialmente. Mas o segundo problema –a criação de um público engajado– é ainda mais difícil. Os jornais, que no passado eram lidos por metade das pessoas de uma cidade, ajudavam a criar um público urbano consciente. Aqueles que compram um jornal podem interessar-se sobretudo pela seção de esportes ou a página das palavras cruzadas, mas, mesmo assim, olharão a primeira página pelo menos de relance, com isso tomando conhecimento de algo sobre sua cidade e o mundo.

    On-line, as pessoas que se interessam por esportes ou palavras cruzadas vão diretamente aos sites que os oferecem, evitando ser expostas a notícias e polêmicas sobre suas comunidades. A informação incidental que se ganha com um jornal metropolitano inclusivo deixa de existir.

    O impacto dessa mudança provavelmente irá variar segundo o nível de renda, de instrução e de interesse político dos leitores. Os mais ricos, mais instruídos e mais politizados possuem os recursos e a motivação necessários para procurar informações on-line, mas esse não é o caso de muitos outros.

    O que está em jogo aqui é o desenvolvimento maior de uma sociedade de informação estratificada. Os EUA já vêm assistindo a um aumento tremendo na disparidade social nas últimas décadas, e qualquer pessoa que se preocupe com a justiça e o futuro da democracia deveria preocupar-se com outros desenvolvimentos que ameaçam agravar essas tendências.

    Isso guarda relação com o terceiro problema: a criação da responsabilidade política efetiva. A capacidade da mídia noticiosa de servir como freio ao governo não depende apenas das leis que protegem a liberdade de expressão, mas também do poder econômico da imprensa. Interesses poderosos podem intimidar organizações que sejam financeiramente fracas.

    Seria insensato prever se a internet vai ou não, em última análise, ser capaz de sustentar o tipo de jornalismo para o público geral que os jornais têm produzido, historicamente.

    Mas seria ainda mais insensato ignorar as evidências do que está acontecendo hoje e confiar numa visão feliz de progresso inexorável proporcionado pela internet.

    O perigo dessa indiferença alegre às realidades desagradáveis é que ela pode nos induzir à inação. Tanto a política governamental quanto a filantropia precisam ser incentivadas a apoiar o jornalismo independente de maneiras novas.

    Espero que você se convença a reconhecer essa necessidade.

    Paul Starr

    16 de abril de 2009

    Caro Paul,

    É verdade que sou otimista quanto às possibilidades de longo prazo do jornalismo, mas a última coisa que quero fazer é incentivar a “inação”. O objetivo todo de meu argumento é sugerir um futuro otimista e inspirar as pessoas a construí-lo. Você quer ação para preservar um modelo de jornalismo de jornais que nos serviu bem durante um século. Eu acho que podemos construir algo melhor.

    Você fala das forças de longo prazo que se alinharam contra os jornais. Elas são reais. Mas você passa por cima de muitas das forças compensatórias –políticas, econômicas e tecnológicas– que beneficiam o jornalismo e também a cultura cívica que o cerca.

    Hoje vemos novas e vastas eficiências na distribuição, graças à passagem da imprensa impressa à digital. Existem oportunidades inusitadas de participação na criação, curadoria e discussão das notícias. O acesso às informações governamentais se tornou mais fácil, graças em parte a iniciativas de transparência como as tomadas pela administração Obama.

    Enquanto isso, novos sites –incluindo um que eu criei, Outside.in– permitem aos cidadãos tratar de questões “hiperlocais” ao nível de quarteirões e bairros das cidades, coisas que os jornais de cidades jamais poderiam alcançar.

    Tudo isso vem acompanhado da capacidade de agregar muitas vozes diferentes num único site, sem pagar pelos custos de criação desse conteúdo. E não se esqueça dos US$ 10 bilhões de publicidade local que virão on-line nos próximos cinco anos.

    Mas não falemos das tendências de longo prazo. Falemos sobre o que está acontecendo agora mesmo em minha cidade natal, Brooklyn.

    Você fala do declínio da cobertura jornalística do governo estadual em Nova Jersey. Nos últimos três anos, a questão cívica dominante em Brooklyn tem sido a polêmica em torno de um grande projeto de reurbanização, o Atlantic Yards.

    No Outside.in, a página dedicada ao Atlantic Yards reúne notícias, reportagens, comentários e bate-papo. Nos últimos cinco dias saíram 30 artigos. A edição impressa do “New York Times” publicou exatamente uma matéria nos últimos 30 dias mencionando o assunto.

    Quão mais rica será a cobertura de uma questão pública importante como o Atlantic Yards nos próximos cinco anos? Como você diz, é arriscado dar um palpite, então imaginemos um futuro baseado inteiramente em empreendimentos e sites já existentes.

    Eis o que eu acho que existirá. Grandes bloggers, como o blog imobiliário do Brooklyn Brownstoner, vão apresentar notícias pela primeira vez, comentar acontecimentos e até ganhar dinheiro. Plataformas de dados como Everyblock vão informar as pessoas sobre novos empreendimentos imobiliários. Pessoas e sites com paixão por trazer fatos escusos à tona –como o corajoso blog Atlantic Yards Report– vão comparecer a todas as audiências públicas para formular perguntas difíceis e vão postar na internet transcrições das audiências, com comentários adicionais. Amadores locais vão vasculhar documentos públicos em busca de detalhes reveladores, e pais presentes às audiências escreverão em blogs sobre o impacto sobre escolas específicas à sombra do projeto. E sites como o Outside.in vão circular as observações deles a leitores que vivem nessa zona escolar, enquanto novas organizações beneficentes como a Spot.us vão financiar artigos investigativos sobre o histórico passado das empresas envolvidas na construção.

    Se forem espertos, jornais de Nova York como o “Times” e o “Post” vão aproveitar essa cobertura, compartilhá-la com seus leitores, usá-la para vender anúncios locais e às vezes colocar um de seus repórteres treinados para desenvolver artigos novos.

    Estes últimos, por sua vez, acrescentarão valor enorme à cadeia de informação, e o ciclo inteiro recomeçará.

    Sim, é verdade que no final desse processo haverá menos jornalistas oficiais de jornais cobrindo acontecimentos como o Atlantic Yards. Mas haverá um declínio correspondente no engajamento cívico público? Não acredito. Você fala sobre o velho sistema dos jornais aumentar o engajamento em parte porque as pessoas tropeçavam na primeira página a caminho das páginas de quadrinhos. Eu nem sequer aceito essa premissa. Desconfio que a web vai mostrar-se muito mais afortunada que os jornais impressos. Mas, mesmo que não o seja, qual sociedade lhe parece incluir mais participação cívica? Uma em que o noticiário é controlado por uma pequena minoria e onde as interações cívicas das pessoas acontecem como leitura feita a caminho da seção de esportes? Ou uma em que milhares de pessoas comuns participam ativamente na criação do próprio noticiário?

    Steven

    17 de abril de 2009

    Prezado Steven,

    Que tal olharmos mais de perto a seu negócio, o Outside.in, e ver se funciona como substituto do jornalismo profissional.

    Vejo que, quando você lançou o Outside.in, em outubro de 2006, empregou o mesmo exemplo do projeto Atlantic Yards. Dois anos e meio já se passaram desde então, e tenho certeza de que você já deve ter outro. Mas qualquer pessoa que navegue por seu site verá que ele não faz reportagem investigativa. Pelo que pude apreender, ele não faz nenhum trabalho de reportagem próprio. Ele agrega o que aparece em outros lugares. Não parece haver qualquer critério de relevância ou importância. E, se o que aparece em outros lugares é lixo, o site ajuda a difundir esse lixo, porque, por sua própria natureza, um site de notícias automatizado não possui aquilo que tem todo bom editor: um detector de lixo.

    Você se refere a um blog chamado Atlantic Yards Report como uma das fontes chaves das notícias sobre o Brooklyn publicadas no Outside.in.

    Chequei essa informação com o editor do Report, Norman Oder. Eis o que ele disse em resposta à pergunta de se o Outside.in faz qualquer trabalho de reportagem ou exerce qualquer seleção editorial: “O Outside.in não ‘cobre’ o Atlantic Yards e, a meu ver, não exerce virtualmente nenhum impacto sobre a discussão local. Ele apenas agrega uma multidão de cobertura noticiosa e de blogs, pegando carona especialmente no meu blog e no portal NoLandGrab.org”.

    É claro que você não paga Oder ou qualquer outra pessoa pelo uso de seu trabalho. Isso pode ser um bom modelo econômico. Mas, se é um modelo para resolver os problemas do jornalismo, isso é outra história.

    Vamos também olhar mais de perto o discurso que você vem usando para colocar-se como corajoso defensor da inovação. Você diz que eu “quero agir para preservar um modelo de jornalismo impresso”.

    Mas, como deixei claro num artigo recente, “Adeus à Era dos Jornais” [publicado em 4/3 na "New Republic"], precisamos buscar novas formas de jornalismo adaptadas às exigências de um ambiente digital, aproveitando plenamente as vantagens deste. O problema é que o tipo de inovação que você está promovendo não responde com eficácia ao problema triplo que mencionei: financiar o jornalismo de serviço público, engajar o público e gerar responsabilidade política.

    Sites como o seu, que tiram notícias, comentários –e lucros– da web dependem inteiramente de que outros paguem pelo trabalho original de reportagem. Alguns blogueiros podem dar furos jornalísticos ocasionais, mas fazer de conta que eles possuem as capacidades de um grande jornal metropolitano é enganoso.

    Um site que tira notícias de outros lugares pode ampliar o público do material que coleta, mas, se existe algum efeito de engajar o público, isso acontece porque outros estão fazendo o trabalho. Engajar o público requer que se identifiquem os acontecimentos e apontem seu sentido, e não apenas que se reproduzam informações (e desinformações) isoladas.

    Finalmente, criar responsabilidade política efetiva requer um poder compensatório da imprensa que um site que tira notícias de outras fontes não terá. Quando falei de jornais reduzindo sua produção e da incapacidade de o jornalismo on-line preencher essa brecha, eu estava me referindo à cobertura do governo estadual em Nova Jersey. Isso é verdade, e se aplica também à cobertura dos governos de outros Estados.

    Nada do que você disse propõe soluções para essa diminuição da cobertura jornalística e suas implicações para a responsabilidade política, e seu site com certeza não é uma solução –você não pode agregar artigos que não estão sendo escritos.

    Para resolver esse problema serão necessários novos investimentos em jornalismo por parte de organizações sem fins lucrativos, novos modelos econômicos que financiem o jornalismo e novas políticas públicas que permitam a organizações noticiosas captar uma parte maior da receita do bem público que produzem.

    E, já que estamos falando em receita, que tal pagar a Norman Oder e outros pelo trabalho que você vem divulgando como se fosse a contribuição de seu próprio site ao debate público?

    Paul

    17 de abril de 2009

    Caro Paul

    É claro que o Outside.in não faz um trabalho de reportagem original. Eu dei o exemplo do Atlantic Yards para mostrar o volume de informações já criadas sobre uma questão pública no Brooklyn. Eu não estava me atribuindo o crédito por esses conteúdos.

    O que acho promissor nessa página, e em milhares de outras em todo o país, é que informações estão sendo criadas e obtidas de uma gama diversificada de fontes, mas são espalhadas por centenas de sites diferentes.

    Embora boa parte dessas informações diga respeito explicitamente a questões hiperlocais –questões imobiliárias, sobre escolas ou crimes–, frequentemente é difícil é encontrar notícias geograficamente próximas ao leitor. Essa é uma parte do ecossistema em que o Outside.in exerce um papel produtivo. Nós organizamos e ampliamos essas vozes. Ajudamos os jornais a se conectarem com os blogueiros e ajudamos os blogueiros a fazer seus artigos chegarem aos sites de “mídia antiga”. Com o tempo, vamos ajudar empresas a publicar anúncios geograficamente selecionados. E, quando o fizermos, se Norman Oder, do Atlantic Yards Report, quiser publicar seu anúncio em nossas páginas, teremos prazer em lhe entregar um cheque mensal. Nosso negócio tem sucesso se os jornais apresentam lucros e se os blogueiros abandonam seus outros empregos.

    Parte de nossas desavenças se devem, acredito, ao fato de que estamos destacando tipos diferentes de engajamento cívico. Há questões maiores –como, por exemplo, se um governador está recebendo propinas de uma construtora. E há milhões de questões locais: uma proposta para fechar uma ciclovia ou um diretor de colégio que os pais dos alunos querem que seja substituído. As primeiras vêm sendo cultivadas pelos jornais há cem anos, e as segundas têm sido insuficientemente atendidas.

    É verdade que são necessárias habilidades jornalísticas tradicionais para as questões macro, mas, no nível hiperlocal, os verdadeiros especialistas são as pessoas na rua.

    Acho que nós dois concordamos que o futuro desse segundo tipo de noticiário é bom. A questão é se o primeiro poderá ser mantido no nível que aprendemos a esperar.

    Acho que poderá, sim, mas concordo que isso vai exigir trabalho. Temos mais participação, uma distribuição mais barata e o fim dos monopólios sobre as informações locais. Sim, podemos ter menos jornalistas investigativos completos, mas também teremos um aumento enorme nas pessoas que mantêm “seus olhos voltados às ruas”, nas palavras da socióloga urbana Jane Jacobs.

    Com certeza deveríamos ser capazes de aproveitar esses ingredientes e moldar um sistema mais eficaz de limites ao poder institucional.

    Mesmo com os jornais em crise, estamos assistindo a inovações sem precedentes e a novos e instigantes modelos de criação de notícias. Seu argumento faz um ótimo trabalho de descrever o que corremos o risco de perder com o fim do modelo de jornalismo impresso antigo.

    Eu gostaria muito de ouvir o que você pensa que devemos criar para tomar o lugar dele.

    Steven

    18 de abril de 2009

    Caro Steven

    Infelizmente, não consigo enxergar a contribuição positiva feita por sites que retiram materiais da internet, misturando releases para a imprensa e trabalhos genuínos de reportagem de maneira indiscriminada, sem aplicar nenhum critério de relevância ou confiabilidade.

    Na melhor das hipóteses, isso é irrelevante para o problema de manter o jornalismo independente, o engajamento cívico e a responsabilidade política.

    Na pior, pelo fato de rasparem alguns dos lucros, os sites de notícias automatizados agravam os problemas financeiros da imprensa.

    Até recentemente eu não levava a sério a ideia de que os agregadores estariam violando direitos autorais, mas agora vejo que os tribunais deveriam deixar claro que a agregação não paga, sistemática e concentrada do trabalho de outras pessoas –sem o acréscimo de valor editorial– não constitui “utilização justa”.

    Uma decisão judicial nesse sentido obrigaria os agregadores a pagar seus próprios repórteres e editores, pagar por outros conteúdos ou então deixarem de operar. E essa seria uma maneira pela qual seria possível canalizar os lucros da agregação de volta para o jornalismo.

    Como já sugeri, organizações sem fins lucrativos e filantrópicas deverão exercer um novo papel de financiar trabalhos de jornalismo investigativo e outros. Enquanto isso, diversas políticas regulatórias poderiam fortalecer o jornalismo local. O governo poderia tratar mais favoravelmente as fusões ou operações conjuntas entre jornais e emissoras, desde que se dispusessem a manter determinados níveis de cobertura jornalística.

    Ele poderia criar novas licenças de emissão de notícias a telefones celulares, condicionadas à obediência aos mesmos tipos de critérios de serviço público ou poderia gerar novas formas empresariais que permitissem que a mídia fosse financiada por entidades com e sem fins lucrativos.

    Existem muitas experiências de jornalismo real on-line. Boa parte delas vem ganhando forma em redes colaborativas, não em organizações de jornalismo tradicionais.

    Em razão disso, as notícias frequentemente são decompostas em segmentos pequenos e divulgadas à medida que se acumulam, em lugar de serem seguradas e desenvolvidas para formar uma narrativa longa.

    Tudo isso atende às demandas peculiares do ambiente on-line, e doadores privados e instâncias públicas deveriam apoiar essas inovações on-line, em lugar de tentar manter os jornais em seus formatos tradicionais.

    O jornalismo independente e profissional poderá sobreviver e crescer se a política oficial e instituições sem fins lucrativos encontrarem maneiras criativos de apoiá-lo.

    Duvido, porém, que ele consiga florescer exclusivamente com as forças do mercado e as novas tecnologias, embora os jornalistas não possam ignorar nenhum desses fatores.

    No entanto, mesmo se o jornalismo independente se adaptar com sucesso, o novo ambiente da mídia provavelmente levará a um abismo maior entre a minoria pequena que se interessa intensamente pela vida pública e o número consideravelmente maior de pessoas que se afasta por completo da esfera pública, informando-se pouco sobre política e importando-se menos ainda com ela.

    Esse é um problema antigo que retornou sob forma nova. O futuro da democracia depende de sermos capazes de descobrir uma maneira de fazer frente a ele.

    Paul

    A íntegra deste debate saiu na Prospect.
    Tradução de Clara Allain

     
  • viktor 22/04/2009 4:27 PM Permalink | Responder  


     
  • viktor 15/04/2009 7:11 PM Permalink | Responder
    Tags: critérios de noticiabilidade, feeding frenzy, mídia, teoria dos jogos   

    Agora que já baixou a poeira das manchetes do BBB, qual será a nova isca para atrair a imprensa inteira – esse cardume de tubarões? Uma olhadela de relance para os últimos oito, dez anos de jornalismo, e tudo o que veremos são grandes imagens, mas nem sempre grandes notícias. Tivemos a morte de Lady Di, e, mais adiante, o World Trade Center desabado. Há alguns anos veio a onda do tsunami, que trouxe ao quebra-mar as campanhas anti-aquecimento global. Daí, perdemos o parkinsoniano João Paulo. Ganhamos a Web 2.0. E, finalmente, veio a Crise de 1929 de 2008, um outro tsunami lá fora. Mas será que essas notícias realmente mudaram o mundo por serem notícias ou mudaram o mundo por terem sido noticiadas?

    Pois é. Não estamos de pernas para o ar. Essa é a velha e boa imprensa-quarto-poder de que os comunistas do Doutor Roberto ouviram falar quando leram Werneck Sodré. Naquela época soava – e talvez ainda soe – meio conspiratório esse discurso todo, mas que outra explicação pode haver para tantos mega-eventos se sucedendo como “a maior notícia da História” em tão pouco tempo? A grande descoberta não foi outra que a de que todos os fatos são potencialmente grandes notícias. Basta que nós os atribuamos caráter de “grande notícia”.

    Se não, vejamos: em alguns ultrapassados manuais de redação ainda encontramos aquela ingênua parábola que nos lega notícia somente o homem que morde o cachorro, jamais o cachorro que morde o homem; ora, que dizer, então, da irrefreável descoberta da notícia-pitbull? A notícia-pitbull nada mais é que aquele fato corriqueiro, por vezes banal, transformado em pauta jornalística: “Pitbull morde o dono”, pronto: está aí uma notícia. E, aqui, não estamos fazendo nenhum juízo de valor a respeito dos ataques de pitbulls ou pitboys. É apenas uma classificação metodológica.

    Pitbull ou não, o que tem acontecido é que o editor da empresa-jornal percebeu que é preciso humanizar a coisa. E o jornal do dia-a-dia acaba virando novela das oito. Não se há-de ser um expert em comunicação para notar aí uma certa inversão de valores. Enquanto as telenovelas investem no realismo das balas perdidas, das grávidas adolescentes e do submundo das drogas; os jornais – sejam impressos, radialísticos, televisivos ou o que for – têm romanceado a sua cobertura a tal ponto que o público acompanha cotidianamente o crescimento dessa avalanche – para não falar em tsunami que esse já é assunto velho – com entusiasmo.

    A vida dá voltas. No Brasil, quando a imprensa foi finalmente liberada pela família real portuguesa, o jornalismo incipiente metia o seu bedelho na literatura com textos rebuscados e bastante opinativos. Era o jornalismo panfletário dO Mequetrefe, dO Bilontra, dos bestializados. O século XIX chegou ao fim de uma forma bem parecida com a que o XXI tem início: era a literatura nos campos do realismo e do naturalismo, e a imprensa de mãos dadas com o beletrismo. Hoje, os blogs não me deixam mentir, o profissional de imprensa mais valorizado é o que sabe opinar, analisar criticamente a realidade; e o que não raro se dispõe a apresentar a sua idéia ao pé de igualdade com os leitores. O jornalista caiu do cadafalso. Mas é entre os blogueiros que isso fica bem claro – o diálogo entre leitores e jornalistas pode ser bem apaixonado; uma rasgação de seda aqui, uma troca de farpas acolá, e parece que voltamos àquele jornalismo naïf de outros tempos, quando a notí­cia era, antes de mais nada, partidária. E os jornais, capitaneados pelos redatores de então, digladiavam-se entre si.

    A função que atualmente cabe ao editor – e que em não muito tempo caberá aos algoritmos -, de decidir o que é e o que não é notícia, é algo de ingrata, ainda que divertida. A responsabilidade de filtrar os fatos que chegam à  redação e traduzi-los em notícia é uma descrição sucinta da neura que acomete esses peixes-grandes do jornalismo todas as vezes em que o veículo é, por assim dizer, furado. E então, como diz a velha máxima popular, “quem tem, tem medo”, e a mídia acaba se pasteurizando, mostrando sempre os mesmíssimos causos, não se sabe por que causa.

    Jornalistas são como pombos: andam em bandos, ciscam o invisível, correm sempre atrás do mesmo milho, e no fim fazem muita porcaria. Mas, vez ou outra, esse esquema montado para garantir a hegemonia dos Rockfeller acaba sendo um tiro pela culatra. Nós podemos mudar o mundo. E esse não é um slogan de Rock in Rio.

    A velha lengalenga idealista – que para muitos só servirá de interlúdio até a próxima grande manchete pós-BBB – chegou para ficar. Na era da informação, o maior capital é o discernimento. Afinal, o que importa se recebemos toneladas de matérias destrinchando a condição de jogadores dos finalistas do reality, se o grande dilema do prisioneiro dos jornalistas é se silenciar diante da evidência de que em jogo que se muda as regras, o líder tende a abandonar o barco? (E é curioso como falamos de BBB com base no Teorema da Casa dos Artistas, formulado empiricamente por Sílvio Santos.) Chega de pitbulls, eu quero o meu border collie!

     
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