viktor
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15/04/2009 às 07:11 pm | # |
Agora que já baixou a poeira das manchetes do BBB, qual será a nova isca para atrair a imprensa inteira – esse cardume de tubarões? Uma olhadela de relance para os últimos oito, dez anos de jornalismo, e tudo o que veremos são grandes imagens, mas nem sempre grandes notícias. Tivemos a morte de Lady Di, e, mais adiante, o World Trade Center desabado. Há alguns anos veio a onda do tsunami, que trouxe ao quebra-mar as campanhas anti-aquecimento global. Daí, perdemos o parkinsoniano João Paulo. Ganhamos a Web 2.0. E, finalmente, veio a Crise de 1929 de 2008, um outro tsunami lá fora. Mas será que essas notícias realmente mudaram o mundo por serem notícias ou mudaram o mundo por terem sido noticiadas?
Pois é. Não estamos de pernas para o ar. Essa é a velha e boa imprensa-quarto-poder de que os comunistas do Doutor Roberto ouviram falar quando leram Werneck Sodré. Naquela época soava – e talvez ainda soe – meio conspiratório esse discurso todo, mas que outra explicação pode haver para tantos mega-eventos se sucedendo como “a maior notícia da História” em tão pouco tempo? A grande descoberta não foi outra que a de que todos os fatos são potencialmente grandes notícias. Basta que nós os atribuamos caráter de “grande notícia”.
Se não, vejamos: em alguns ultrapassados manuais de redação ainda encontramos aquela ingênua parábola que nos lega notícia somente o homem que morde o cachorro, jamais o cachorro que morde o homem; ora, que dizer, então, da irrefreável descoberta da notícia-pitbull? A notícia-pitbull nada mais é que aquele fato corriqueiro, por vezes banal, transformado em pauta jornalística: “Pitbull morde o dono”, pronto: está aí uma notícia. E, aqui, não estamos fazendo nenhum juízo de valor a respeito dos ataques de pitbulls ou pitboys. É apenas uma classificação metodológica.
Pitbull ou não, o que tem acontecido é que o editor da empresa-jornal percebeu que é preciso humanizar a coisa. E o jornal do dia-a-dia acaba virando novela das oito. Não se há-de ser um expert em comunicação para notar aí uma certa inversão de valores. Enquanto as telenovelas investem no realismo das balas perdidas, das grávidas adolescentes e do submundo das drogas; os jornais – sejam impressos, radialísticos, televisivos ou o que for – têm romanceado a sua cobertura a tal ponto que o público acompanha cotidianamente o crescimento dessa avalanche – para não falar em tsunami que esse já é assunto velho – com entusiasmo.
A vida dá voltas. No Brasil, quando a imprensa foi finalmente liberada pela família real portuguesa, o jornalismo incipiente metia o seu bedelho na literatura com textos rebuscados e bastante opinativos. Era o jornalismo panfletário dO Mequetrefe, dO Bilontra, dos bestializados. O século XIX chegou ao fim de uma forma bem parecida com a que o XXI tem início: era a literatura nos campos do realismo e do naturalismo, e a imprensa de mãos dadas com o beletrismo. Hoje, os blogs não me deixam mentir, o profissional de imprensa mais valorizado é o que sabe opinar, analisar criticamente a realidade; e o que não raro se dispõe a apresentar a sua idéia ao pé de igualdade com os leitores. O jornalista caiu do cadafalso. Mas – entre os blogueiros isso fica bem claro – o diálogo entre leitores e jornalistas pode ser bem apaixonado; uma rasgação de seda aqui, uma troca de farpas acolá, e parece que voltamos àquele jornalismo naïf de outros tempos, quando a notícia era, antes de mais nada, partidária. E os jornais, capitaneados pelos redatores de então, digladiavam-se entre si.
A função que atualmente cabe ao editor – e que em não muito tempo caberá aos algoritmos –, de decidir o que é e o que não é notícia, é algo de ingrata, ainda que divertida. A responsabilidade de filtrar os fatos que chegam à redação e traduzi-los em notícia é uma descrição sucinta da neura que acomete esses peixes-grandes do jornalismo todas as vezes em que o veículo é, por assim dizer, furado. E então, como diz a velha máxima popular, “quem tem, tem medo”, e a mídia acaba se pasteurizando, mostrando sempre os mesmíssimos causos, não se sabe por que causa.
Jornalistas são como pombos: andam em bandos, ciscam o invisível, correm sempre atrás do mesmo milho, e no fim fazem muita porcaria. Mas, vez ou outra, esse esquema montado para garantir a hegemonia dos Rockfeller acaba sendo um tiro pela culatra. Nós podemos mudar o mundo. E esse não é um slogan de Rock in Rio.
A velha lengalenga idealista – que para muitos só servirá de interlúdio até a próxima grande manchete pós-BBB – chegou para ficar. Na era da informação, o maior capital é o discernimento. Afinal, o que importa se recebemos toneladas de matérias destrinchando a condição de jogadores dos finalistas do reality, se o grande dilema do prisioneiro dos jornalistas é se silenciar diante da evidência de que em jogo que se muda as regras, o líder tende a abandonar o barco? (E é curioso como falamos de BBB com base no Teorema da Casa dos Artistas, formulado empiricamente por Sílvio Santos.) Chega de pitbulls, eu quero o meu border collie!
