viktor
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19/05/2009 às 03:08 pm | # |
Sexo, mentiras e fakecams
“Existe tempo que não seja real?” Há uns cinco anos ouvi esta pergunta de um professor basco que ministrou uma oficina quando eu estava no fim de minha graduação. Não é novidade que a mídia impressa corre sempre atrás do prejuízo quando o assunto é internet. Isso, é claro, é uma questão que está intimamente relacionada ao suporte. A informação digital é leve e, como o vírus da gripe suína, se propaga facilmente pelo ar.
O grande problema, contudo, é que não é uma questão de tecnologia e velocidade apenas, é uma questão de timing. E timing aponta na direção exata do que uma antropóloga-socióloga americana define como “news judgement”, ou seja, a capacidade humana de o jornalista operar com seus próprios valores e aplicá-los no que seria uma espécie de ethos profissional. O news judgement seria responsável por estabelecer critérios razoavelmente claros (mas inextricavelmente subjetivos) sobre que notícia é mais importante que outra e quando algum acontecimento é ou não notícia. Para ela, o news judgement é uma espécie de senso comum do jornalista que aparece sempre que, em última instância, se solicita o porquê de determinado juízo sobre determinada pauta. Ou seja, é uma espécie de arma contra a qual não se pode lutar, no que Tuchman chama de “ritual estratégico de objetividade” do jornalista.
Minha percepção é de que o tempo nas redações de publicações impressas é mesmo diferente do tempo da vida online. Isso, é claro, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Há uma inexplicável resistência em se evidenciar um assunto com o mesmo imediatismo que os jornalistas-da-internet costumam fazê-lo, o que acontece não somente pela propagada responsabilidade de apuração jornalística, mas sobretudo pelo timing dos impressos, que é diferente do timing dos onliners.
Esta é a primeira questão.
A segunda está relacionada a uma curiosa cultura de mídia definitivamente mais moralista no Brasil que em outros lugares. Uma coisa que poderia ser classificada como “cultura do abafa”. Nos Estados Unidos, nos tablóides ingleses, mesmo na França (e aqui lembro que numa ocasião abri uma revista de gastronomia francesa certa feita e me deparei com um anúncio com uma mulher em nu frontal sem nenhum pudor), a cultura papparazzi de celebridades é mais dominante. Por lá, se a amiga da namorada do príncipe William promove orgias em casa, o assunto ganha as manchetes do mundo. Se o supremo dirigente da entidade máxima do automobilismo é flagrado em uma bacanal nazista, logo se sabe, e não há muito o que esconder depois disso. Ao contrário, o que escondem são os problemas sociais, as revoltas populares, os assuntos de segurança interna. É mais fácil um governador de Nova Iorque ser deposto por se envolver com uma rede de prostituição do que por improbidade fiscal.
Ao menos à primeira vista, em clara generalização em prol do meu argumento, no Brasil, os escândalos políticos e os problemas sociais ganham as capas dos jornais, enquanto informações sigilosas sobre o submundo das celebridades são cotidianamente abafadas. O que chega na mídia brasileira sobre os escândalos com famosos ou é coisa supostamente leve (Chico Buarque pegando a menina no Leblon) ou coisa esquisita demais para ser omitida (Ronaldo pegando travestis) ou coisa que chega a nós pela mídia estrangeira (Robinho acusado de estupro) – e aí não tem mais jeito, a merda “está feita”!
Postas estas duas questões, introduzo (no bom sentido) o tema do artigo. No jornal O Globo, de 14 de maio, uma minúscula nota na coluna Gente Boa, de Joaquim Ferreira dos Santos, me chamou a atenção pelo démodé do teor. Ela (a nota) dizia que a Felina tinha sido desmascarada pelo “especialista em internet” Ted Fernandes, que costuma ajudar a Polícia Federal em investigações sobre pedofilia.
A Felina, para quem pega o bonde andando, é uma suposta mulher (ao menos no avatar e nas fotos que ela tem divulgado por aí, é até gatinha!) que estaria divulgando fotos de celebridades famosas nuas/seminuas em seu blog, como Ronaldo Fenômeno, Vanderlei Luxemburgo, Alexandre Pato, Diego Hypólito, Júnior Lima (o da Sandy) e outros tantos. Na verdade, não haveria nenhuma novidade nisso se o Blog da Felina não exibisse o pitoresco atrativo de uma contextualização: as fotos divulgadas, entre elas de atores, cantores, técnicos e principalmente jogadores de futebol, são obtidas através de conversas por MSN entre as personalidades e ela, uma loira ex-modelo. A Felina, que segundo a própria, é um alter ego de Fabiane Menezes, mantém um diálogo com a vítima por longas semanas, às vezes meses, até que, num dia, combina um strip-tease conjunto. Ela tira a roupa e o sujeito… vamos dizer… se masturba. Ok. Nesse ponto, começam os argumentos partidários e contra-partidários: “Que absurdo! A sociedade está completamente degradada” ou até “Mas isso é normal. Quem é que nunca fez ou quis fazer sexo virtual com uma mulher daquelas?” Pra mim, isso é irrelevante. Então, por favor, nos comentários, ninguém venha me perguntar se eu faria ou não faria sexo virtual com uma mulher “daquelas”.
Eu, é claro, já sabia da história da Felina de longa data. Acompanhei o blog dela a partir da entrevista pioneira do KibeLoco com a própria por MSN. Li as interações entre ela e o Tico Santa Cruz e também entre ela e o Marcelo Luque, segundo a própria, “seu atual melhor amigo”.
O que me surpreendeu na nota dO Globo foi o timing da notícia e a autoridade conferida ao especialista Ted Fernandes. O timing porque até que o jornal divulgasse alguma coisa, a notícia já tinha alcançado o status de viral na rede, sendo replicada em milhares e milhares de blogs sobre os mais diversos assuntos, além de menções breves e obviamente de cunho conservador nos programas do Datena e do Ratinho. Ted Fernandes, o especialista, é um blogueiro comum, de cerca de 20 anos, meio moralista meio olavete (que é como se costuma denominar os blogueiros neoliberais-conservadores na blogosfera, por sua proclamada atração pelas idéias do filósofo Olavo de Carvalho). Ted ainda cultua a figura de Arnaldo Jabor – alguém que admira o Arnaldo Jabor é realmente uma fonte confiável?
Pois segundo o blogueiro, cidadão-jornalista de primeira ordem, a Felina seria um homem fazendo-se passar por mulher, usando, para tanto, um aplicativo chamado fakecam. Era isso o que dizia a nota e foi isso o que me fez querer acessar o blog do Ted.
O aplicativo indicado na nota dO Globo, pelo que li a respeito, simplesmente transmitiria vídeos comuns pela webcam. Assim, de acordo com a hipótese levantada pelo blogueiro, “o” Felina usaria um vídeo amador de uma loira qualquer fazendo strip e as celebridades acreditariam nisso. Convenhamos que quem confunde travesti com mulher até as últimas conseqüências também não deve ter discernimento suficiente para identificar o que é um vetê amador fazendo-se passar por uma mulher real. Mas, para mim, é no mínimo curioso. Fiquei pensando que é como ficar conversando com uma secretária eletrônica por semanas sem se dar conta de que as respostas estão pré-programadas!
No blog do Ted, vi que ele afirmava ter conseguido rastrear o IP (a identidade na internet de cada computador) da Felina e chega a mostrar uma foto do GoogleMaps com o endereço dela. Ainda seguindo as informações levantadas por ele, Felina seria um homem, não uma mulher, e homossexual (antes que me perguntem como diabos ele conseguiu saber da opção sexual do sujeito, esclareço que a associação foi feita simplesmente porque o IP de Felina constava como o responsável pela criação de um perfil em um site de relacionamentos gay). Enquanto isso, no seu blog, Felina respondia dizendo que estava sendo ameaçada e que desde sempre postava de lan houses, o que impossibilitaria que o rastreamento por IP chegasse ao seu endereço físico real. Outros blogueiros apoiaram a versão de Ted, afirmando que os erros grosseiros de português nos posts da Felina e as constantes gírias gays utilizadas eram prova o bastante de que se tratava mesmo de um “ressentido”.
Num blog da Época, também bem depois de a coisa toda explodir, o repórter contava sobre a versão do Ted e acabou recebendo um comentário dele e mais outros tantos da própria Felina, o que acabou possibilitando um contato para que ela concedesse uma exclusiva à revista, com direito a trechos em áudio que “provavam” sua feminilidade. Até então, alguém, em algum momento, comentava dizendo que estranhava o fato de só o Kibeloco ter obtido uma entrevista com ela, agora promovida a celebridade-viral. Na última semana, ainda veio a menção à Felina no Caldeirão do Huck, quando uma ex-BBB cujo namorado foi também flagrado pela janela indiscreta do MSN, dizia que a blogueira tentou extorqui-la com a história. A resposta da outra celebridade-BBB à celebridade-viral foi taxativa: “O pinto não é meu… então, vai te catar!”
No fim, por conta da pressão da suposta investigação de Ted, Felina dizia que se sentia acuada e que iria sair de cena, desativando o blog, o que realmente aconteceu poucos dias depois, após os avisos dela própria de que eram os seus últimos posts. Na tal nota dO Globo, parecia que o blog foi desativado pelas autoridades públicas, auxiliadas pelo “especialista” e foi assim que muitos outros blogs veicularam a notícia. O Ted era o grande herói no fim das contas. Mas acontece que, um dia depois, a Felina voltou e disse que não tinha sido banida do Blogger coisa nenhuma, que ela própria havia decidido pela remoção do blog, por causa da depressão que a divulgação das imagens do Ronaldo Fenômeno sem camisa na webcam haviam causado em Ronald, o filho dele – segundo ela com a Luma de Oliveira (hehe). Desmentida a informação que já circulava solta pela rede pós-nota dO Globo, a Felina voltou a postar em seu blog, mas, desta vez, apenas fotos de divulgação com celebridades seminuas e fotos pirateadas de sites e campanhas eróticas internet afora, ou seja, só mais um blog pornô. Contra isso, o Ted disse que não vai lutar.
Essa história toda serve para ilustrar essas duas condições que evidenciei lá em cima: a diferença de timing entre uma mídia e outra e a “cultura do abafa”. O fato é que as informações ainda estão completamente desencontradas. Não é possível saber quem fala a verdade e quem fala mentira. Mas a mídia tradicional comprou a versão do Ted sem ter certeza nenhuma do que está acontecendo, somente para “desmascarar” a Felina e abafar o caso. Mesmo sendo um homem, mesmo sendo homossexual (o que parece ser sinônimo de ressentido no discurso dos “desmascaradores”), é no mínimo escandaloso que os famosos tirem a roupa e fiquem ali se masturbando para uma webcam. Embora nos blogs os comentários mais sensatos apontem nessa direção, ninguém fala sobre isso nos grandes meios de comunicação. O alarde é para a descoberta da falsidade ideológica. O foco das reportagens da Época e da nota dO Globo, entre outras várias menções anteriores, apostam no Ted, que é um blogueiro como qualquer outro e simplesmente tem uma versão sobre os fatos. Digna, é claro, que merece ser investigada, é claro, mas que não é notícia por si só. Notícia é o Blog da Felina ter atingido 2,7 milhões de acessos em pouco mais de um mês, um número extraordinário considerando-se o tempo em atividade e as condições do veículo (um blog no Blogspot/Blogger). Sobre isso, ninguém ousou noticiar. Abrir para o debate sobre essa cultura de mídia que é quase sinônimo de cultura de exposição e voyeurismo, ninguém quis, exceto os blogueiros mais descolados. Falar sobre a versão desencontrada da Felina, de que seria verdadeiramente uma mulher seduzindo homens famosos pelo MSN, ninguém arriscou. Mas não houve princípio de dúvida e nem apuração efetiva para se noticiar a informação não menos desencontrada de Ted Fernandes, que se propunha a abafar o caso, já que, como ele diz, o objetivo foi “tirar de lá imagens que estavam sendo expostas sem autorização”. Na pior das hipóteses, Ted, uma espécie de cruzado contra a pirataria, não se incomoda de ver fotos piratas no novo blog da Felina. Mas se incomoda se ver famosos que posaram espontaneamente para ela por lá. Mas, independentemente da idiossincrasia do Ted (de quem espero um comentário prestigiador aí embaixo!), alguém questionou isso? Mais: por que, independentemente da idiossincrasia da Felina (um comentário seu também seria fenomenal!), a grande imprensa não noticiou o que verdadeiramente era notícia, por mais escandaloso que fosse?
Mesmo que seja verdade a informação do Ted – um caso raro de jornalismo cidadão investigativo no Brasil (nos Estados Unidos, esse tipo de coisa acontece com mais freqüência) –, os meios de comunicação tradicionais chegaram atrasados demais (e não pela tecnologia ou pelo suporte! mas pelo seu alegado “news judgement”), sob o pretexto de que estavam apurando os fatos. Matérias sobre a política brasileira, mesmo que desmentidas mais tarde, são noticiadas sem nenhum constrangimento em se apurar se verdadeiramente procedem ou não. E elas derrubam governos e instabilizam o regime democrático. Por essa lógica, parece óbvio que um blog que tenha despertado tanta atenção da dita “opinião pública” no último mês merecia ser noticiado quando no auge. Mas a “cultura do abafa” (e não a “política do abafa”!) – note que usei o termo não à toa – parece estar entranhada na cabeça de muita gente de imprensa. Mas a repercussão e a discussão proposta pela Felina, independentemente da sua idiossincrasia, e o esforço pessoal e voluntarizado do Ted Fernandes, independentemente da sua idiossincrasia, são prova de que esses timings diferentes (”Existe tempo que não seja real?”) às vezes incomodam. Não só quando o escândalo é altamente erotizado, como é o caso da Felina, mas também em outras etapas da nossa vida cultural. Muita coisa é abafada por aí pela grande mídia, porque afinal de contas opinião pública é só sinônimo de opinião publicada.
